sexta-feira, 27 de agosto de 2021

O trevo: sorte e obstáculos

"It's kushti bak tô wellán a ROM, When tute's a pirriyin pré the drom." ("Quando por uma estrada andar, sorte é um Cigano encontrar.")
É impossível falar da etnia cigana sem tocar no assunto das leituras da sorte. Sabemos que o ser humano, embora seja criativo e domine a natureza, pode sofrer com o fatalismo, acreditando em destinos traçados por forças superiores. Desejando antever essas fatalidades do destino, de forma a modificar o resultado final, as diversas culturas existentes cultivaram oráculos - aprofundaremos mais tarde - que permitem que o consulente tomasse em suas mãos o destino de sua vida. 
Uma destas artes oraculares associadas aos ciganos seria a quiromancia(leitura de mãos), herdado talvez dos Bramanes e espalhado pelo mundo pelos ciganos. Embora possa parecer, essa arte não é exclusividade do povo Cigano e hindu, sendo possível encontrar referência em um dos livros mais místicos do Judaísmo o Zohar que afirma:

"As linhas da mão, e especialmente as da mão direita, são importantes. Cinco linhas fracas na face interna do indicador, em sua base, e quatro linhas na ponta, bem como quatro linhas verticais do lado de fora do mesmo dedo indicam o homem descuidado e preguiçoso. Poderia ter êxito se empreendesse alguma coisa mas, sua preguiça o impede. Esse mistério se expressa na letra Zain. Uma vertical no lado de dentro do dedo grande mostra um homem que é cuidadoso e reflete antes de cada ato. Duas linhas verticais no mesmo dedo, que não desaparecem quando está estendido, mostram um homem que pensa pouco e age espontaneamente. Três linhas verticais no mesmo lado, junto com duas ou três linhas naquele lado do dedo que toca o dedo anular, mostram um espírito fino e cuidadoso, que busca o caminho reto. Três ou quatro linhas no lado de fora e o mesmo número no lado de dentro do dedo grande mostra um homem que pensa somente em fazer o mal. Mas as linhas da mão não são permanentes, e por meio do arrependimento um homem pode mudar sua natureza." ( O Zohar, pág. 131)

A característica inicialmente nômade e adaptativo dos ciganos permitiu que eles absorvesse, bem como influenciasse os aspectos culturais dos povos que tiveram relacionamento, seja comercial, artístico ou social. 
Ainda assim, a inclusão social do povo nômade sempre foi um obstáculo a ser enfrentado, hoje por meio de pastorais e ações sociais, o registro do povo cigano tem ocorrido, garantindo serviço essenciais como saúde e documentos, enquanto no aspecto de segurança, diante de fatos como ocorridos na Bahia recentemente, e em diversas partes do mundo onde os ciganos são perseguidos e mortos, podemos perceber que os ciganos por vezes falam de uma coisa que podem não ter, mas sempre agirão para conquistar: a sorte e o respeito. 

Referência:
Bansion, Ariel, 1880-1932- O Zohar: o livro do esplendor- São Paulo: Polar, 2006.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

O cavaleiro: Origens

Não existe uma marcação correta do surgimento dos Roma, nem o local de  origem do grupo étnico. Segundo pesquisas mais recentes, o povo Roma possuem em sua formação traços da linguística sanscrita, bem como indicação genética comum de ancestrais provenientes da Índia. 
O mistério da origem desse povo alimentou diversas lendas, geralmente pautadas na discriminação, como por exemplo a lenda de que os ciganos seriam descendência de Caim e que pelo fato do mesmo ter assassinado seu irmão Abel, ele e seus descendentes teriam sido condenado a vagar sem destino pelo mundo.
Esta lenda criou forças por conta do talento artístico do povo cigano, e sua ligação com músicas, danças, a arte de forjar jóias e armas pela manufatura de metais bem como o domínio sobre animais que será abordado mais afrente, artes essas biblicamente desenvolvidas por um dos descendentes de Caim considerado o país das artes e ferreiros Tubal-Caim. Esta afirmativa se mostra muito semelhante as empregadas contra o povo africano escravizado que teriam a cor da pele como marca divina adquirida por seus erros passados. 
Uma vez questionei um Cigano, sobre essa lenda e como ele se sentia a respeito desta fala dos gadjos (não ciganos) e sua resposta não podia ser melhor:
"Que maravilha isso seria, você não acha? Caim recebeu uma benção divina quando Deus afirmou: "maldito o homem que te tocar ou tocar em um dos seus descendentes, pois, este será sete vezes mais maldito". Evitaria muitas mortes de ciganos."
No livro o falcão de Sabá o autor Ralph Ellis, já adquire uma postura menos xenofóbica, sugerindo que os ciganos seriam a descendência de um monarca chamado Ay que tinha um irmão chamado Aegyptus, e era conhecido como ROM, desta forma os Romanis seriam descendentes destes monarcas.
Minha avó, assim como os do grupo calon, preferem afirmar que são descendentes de Sara e Abraão, sendo beneficiarios das bençãos divinas dadas por Deus, livres, tem a terra por lar sendo os limites de sua pátria o lugar onde a vista alcançar, sabendo que este lugar subjetivo seu lar não tem muros nem fronteiras, sendo sua pátria onde ele estiver. Claro que esta é a minha versão predileta, não importando sua veracidade factual, mas a verdade que traz em sua essência, a liberdade...
Assim termino a primeira abordagem sobre os Ciganos seguindo o simbolismo de Lenormand... Não importando sua origem inicial, eles existem e prezam por sua liberdade seguindo seus extintos, apenas caminham sobre a terra belos, incompreendidos, misteriosos e principalmente livres...
Afinal, como afirmam "A terra é minha casa, o céu e meu teto e a liberdade minha religião". 

Referência:
Ellis, Ralph - As Chaves de Salomão: o Falcão de Sabá: A Redescoberta das Tumbas do Rei Davi, do Rei Salomão, de Hiram Habif e da Rainha de Sabá- pág:272-Trad.: Ana Carolina Trevisan. — São Paulo: Madras, 2004

domingo, 22 de agosto de 2021

Cultura Cigana pelo Baralho de Lenormand

     Se existe um povo étnico misterioso esta é a etnia Roma (cigana), associado a eles temos um baralho muito comum no Brasil, conhecido especificamente por baralho Cigano. O baralho cigano é composto por 36 cartas com figuras que remetem a algum aspecto da cultura Roma. No entanto, o oráculo se encontra disponível mesmo aos não ciganos, sendo de fácil manuseio e interpretação. 

       Este oráculo deve sua fama a Madame Marie Anne Adelaide Lenormand, uma cartomante Francesa, que segundo as lendas teria feito previsões a homens influentes como Robespierre e mesmo ao Czar Alexandre I e Napoleão Bonaparte. 

    

                                          Fig 1: Marie Anne Adelaide Lenormand

    A quem diga que o oráculo ficou perdido por cerca de dois séculos. Mas, devido a arte das cartas ciganas serem geralmente produzidas dentro dos clãs, acredito que tenha sobrevivido dentro de grupos ciganos e depois foram tornando parte do imaginário popular, escapando ao controle dos clãs e se tornando parte do misticismo. 

        Fig 2: Tarot Petit Lenormand/Tarot Cigano

    As postagens que aqui serão efetuadas, não se trata de uma postagem comum sobre a divinação ou adivinhação desempenhada pelas ciganas em suas tendas/casas aos consulentes; mas pretende apresentara algo sobre a cultura, quebrando de alguma forma um pouco dos estereótipos criados pela sociedade e pelo senso comum auxiliando de alguma forma em combater a discriminação, xenofobia e o racismo que este povo ainda sofre pelo país e pelo mundo.