quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Breve racionalismo

 


Final de ano, período de festas, fartura e diversão. Algumas desavenças estarão suspensas até que passe o último estalo do show de pirotecnia, até o último estouro do champanhe, a última bolha do gás de uma bebida que causa euforia e esperança de uma vida melhor.

Nas páginas sociais, reflexões surgem aos montes, geralmente apontando lições que foram ensinadas subjetivamente pela vida, promessas nascem naturalmente como projetos concretos que aguardam no fim da curva.

A sensação de que podemos ser donos de nossas próprias metas, destinos e conseguiremos realizar tudo que planejamos.

Como se fossemos intocados pelo acaso, pelo inesperado, por uma força desconhecida que quebra o ego, destrói os planos e mostra o quanto somos frágeis, medrosos e dependentes.

Partilhamos lições, que nunca foram aprendidas, por que se fossem assimiladas, não se repetiriam. As reflexões ecoam como se fossemos elevados o suficiente, para ensinar com nossos passos o caminho alheio. Como se alguma coisa fizesse diferença, como se as palavras lançadas fossem fazer um desvio do problema que espreita.

Nas festas ficamos apenas suspensos em nossos pensamentos e sonhos esperançosos. E ao entrar um novo ano, onde terão inúmeras lições que não serão aprendidas, de infortúnios inesperados, e de momentos breves de alegria por ter vencido uma adversidade a mais. E percebemos que na verdade não houve mudança alguma. Afinal, só repetimos a programação social, não fizemos nada de mais, uma roupa colorida jamais nos trará o amor, o dinheiro inesperado, ou a paz almejada.

Ser bondoso sob a própria perspectiva, não te blindará da perversidade humana, que aguarda um sonhador desavisado na espera de uma reciprocidade inexistente.

Se quiser ser bom, seja. Mas, aguarde pedras no lugar de flores, afinal nunca vi uma árvore frutífera que não levasse pedrada.    

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

A casa: A Tsara Cigana

   Fig.1: Acervo Pessoal.
Existe um senso comum de que só é cigano quem vive em tendas/acampamento e vive mudando. A verdade é que isso não é fato. Existem ciganos nômades, semi nômades e sedentário. Para melhor ilustrar, os que vivem em acampamentos, os que têm moradia, mas, trabalham viajando e os que têm vida estabilizada com empregos fixos e moradia fixa, sendo conhecidas pelo nome Tsara.
Embora possa dar uma aparência de insegurança as Tsaras e os ambientes de acampamento, possuem a mesma prerrogativa de garantia de inviolabilidade que tem uma casa em um centro urbano.
Uma curiosidade que ronda o gadjo (não cigano), trata da organização familiar dos ciganos.  E está postagem tenta abordar um pouco desta questão.
O núcleo familiar é sagrado, levando em alta conta o vínculo sanguíneo existente entre as partes. Cada qual dentro da família tem seus deveres e direitos, as mulheres são responsáveis pela educação das crianças, ao homem cabe a garantia alimentar e segurança da família, os idosos, são vistos como grandes mantenedores da cultura e da justiça familiar, sendo constantemente consultados a respeito de atitudes que devam ser tomadas para benefício de todos. 
A higiene sendo outra questão em alta conta para os que não são ciganos, que por meio de ignorância acha que ciganos são "impuros", mas desconhecem que em um acampamento o anseio e higiene estará sempre em especial atenção. As roupas são fervidas para que seja limpas de qualquer impureza, as panelas estarão sempre brilhando. E desta forma se evita inúmeras doenças e viroses. 
Como a vivência traduz melhor a respeito da organização familiar, durante as demais postagens, as relações a respeito desta organização poderá ser percebida. No entanto, peço apenas que seja abandonada qualquer pensamento de intolerância, e que seja feito um exercício de empatia enquanto se lê os textos apresentados, com certeza, o exercício da humanidade será reforçada em seu íntimo e seu pensamento social será ainda mais expandido.
    Fig.2: Acervo Pessoal

Fig.3: https://amambainoticias.com.br/m/brasil/povos-ciganos-percursos-resistencias-e-direitos-de-um-povo-milenar

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

O mar: Os ciganos no Brasil

O Brasil, como sabemos inicia sua história após o período mercantilista, e a expansão das grandes navegações. Que tinham o objetivo de arrecadar maior riqueza para as coroas, compostas por metais preciosos e especiarias que eram garantia de comércio com outros países e fortalecimento da moeda. Sabemos também que a Coroa somente cogitaria colonização a partir de 1600 com a tentativas de invasão holandesa pela costa nordeste do Brasil.
O que pouco se sabe é que o final do século XV e início do século XVI, Portugal deu início à conversão forçada de sua população ao Cristianismo. A população de Portugal era composta de uma diversidade cultural tendo sua economia fortalecida por meio do comércio entre os povos Judeus, Mouros, Turcos e os proto hindus que em minha concepção inclui os ciganos. A não conversão ao cristianismo, ou a manutenção de práticas religiosas não cristãs, poderia ser visto como heresia, cuja sentença poderia ser o chamado relaxamento (forca). 
Assim manter práticas culturais poderiam ser perigosas, como medida para amenizar as sentenças de morte em Portugal, outra medida poderia ser tomada, mas de longe seria menos agressiva: a deportação ou trabalho nas galés.
   Galé: Embarcação em que era posto            condenados para trabalharem.

Quando o indivíduo transgressor era considerado com certa importância econômica ou social o mesmo era deportado para uma das colônias ou condenado a trabalhar nas galés, que acreditava-se ser terrível já que o Brasil era cheio de canibais e monstros nunca antes visto. E o indivíduo teria ainda de sobreviver as intempéries do mar e até mesmo ao leviatã, ou seja, manter-se vivo nessas condições era sobreviver ao inferno.
Mesmo diante disso tudo, em 1574, diante de da condenação ao trabalho nas galés e a sua esposa Angelina sendo obrigada a sair de Portugal por serem Ciganos, O cigano João Torres opta por ser degredados e escreve ao rei solicitando ser enviado com sua esposa para o Brasil, estendendo a cultura cigana para o além mar; onde Portugal tinha suas mãos, mas não se importava com o que ocorresse, desde que estivesse dando lucros. Além disso sobreviver ao inferno marinho já poderia ser considerado um julgamento divino. Os ciganos, têm uma história que afirma que além do sol está uma terra que jorra mel, assim segue-se o sol em busca desta canaã cigana, e o Brasil bem como a América poderia ser está terra. Por quê não arriscar?
Este é apenas o início dos ciganos no Brasil, que iremos ainda aprofundar em postagens futuras.
Referência: 
Green, Toby- Inquisição
Pieroni, Geraldo- Vadios, Heréticos e Bruxas

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

O trevo: sorte e obstáculos

"It's kushti bak tô wellán a ROM, When tute's a pirriyin pré the drom." ("Quando por uma estrada andar, sorte é um Cigano encontrar.")
É impossível falar da etnia cigana sem tocar no assunto das leituras da sorte. Sabemos que o ser humano, embora seja criativo e domine a natureza, pode sofrer com o fatalismo, acreditando em destinos traçados por forças superiores. Desejando antever essas fatalidades do destino, de forma a modificar o resultado final, as diversas culturas existentes cultivaram oráculos - aprofundaremos mais tarde - que permitem que o consulente tomasse em suas mãos o destino de sua vida. 
Uma destas artes oraculares associadas aos ciganos seria a quiromancia(leitura de mãos), herdado talvez dos Bramanes e espalhado pelo mundo pelos ciganos. Embora possa parecer, essa arte não é exclusividade do povo Cigano e hindu, sendo possível encontrar referência em um dos livros mais místicos do Judaísmo o Zohar que afirma:

"As linhas da mão, e especialmente as da mão direita, são importantes. Cinco linhas fracas na face interna do indicador, em sua base, e quatro linhas na ponta, bem como quatro linhas verticais do lado de fora do mesmo dedo indicam o homem descuidado e preguiçoso. Poderia ter êxito se empreendesse alguma coisa mas, sua preguiça o impede. Esse mistério se expressa na letra Zain. Uma vertical no lado de dentro do dedo grande mostra um homem que é cuidadoso e reflete antes de cada ato. Duas linhas verticais no mesmo dedo, que não desaparecem quando está estendido, mostram um homem que pensa pouco e age espontaneamente. Três linhas verticais no mesmo lado, junto com duas ou três linhas naquele lado do dedo que toca o dedo anular, mostram um espírito fino e cuidadoso, que busca o caminho reto. Três ou quatro linhas no lado de fora e o mesmo número no lado de dentro do dedo grande mostra um homem que pensa somente em fazer o mal. Mas as linhas da mão não são permanentes, e por meio do arrependimento um homem pode mudar sua natureza." ( O Zohar, pág. 131)

A característica inicialmente nômade e adaptativo dos ciganos permitiu que eles absorvesse, bem como influenciasse os aspectos culturais dos povos que tiveram relacionamento, seja comercial, artístico ou social. 
Ainda assim, a inclusão social do povo nômade sempre foi um obstáculo a ser enfrentado, hoje por meio de pastorais e ações sociais, o registro do povo cigano tem ocorrido, garantindo serviço essenciais como saúde e documentos, enquanto no aspecto de segurança, diante de fatos como ocorridos na Bahia recentemente, e em diversas partes do mundo onde os ciganos são perseguidos e mortos, podemos perceber que os ciganos por vezes falam de uma coisa que podem não ter, mas sempre agirão para conquistar: a sorte e o respeito. 

Referência:
Bansion, Ariel, 1880-1932- O Zohar: o livro do esplendor- São Paulo: Polar, 2006.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

O cavaleiro: Origens

Não existe uma marcação correta do surgimento dos Roma, nem o local de  origem do grupo étnico. Segundo pesquisas mais recentes, o povo Roma possuem em sua formação traços da linguística sanscrita, bem como indicação genética comum de ancestrais provenientes da Índia. 
O mistério da origem desse povo alimentou diversas lendas, geralmente pautadas na discriminação, como por exemplo a lenda de que os ciganos seriam descendência de Caim e que pelo fato do mesmo ter assassinado seu irmão Abel, ele e seus descendentes teriam sido condenado a vagar sem destino pelo mundo.
Esta lenda criou forças por conta do talento artístico do povo cigano, e sua ligação com músicas, danças, a arte de forjar jóias e armas pela manufatura de metais bem como o domínio sobre animais que será abordado mais afrente, artes essas biblicamente desenvolvidas por um dos descendentes de Caim considerado o país das artes e ferreiros Tubal-Caim. Esta afirmativa se mostra muito semelhante as empregadas contra o povo africano escravizado que teriam a cor da pele como marca divina adquirida por seus erros passados. 
Uma vez questionei um Cigano, sobre essa lenda e como ele se sentia a respeito desta fala dos gadjos (não ciganos) e sua resposta não podia ser melhor:
"Que maravilha isso seria, você não acha? Caim recebeu uma benção divina quando Deus afirmou: "maldito o homem que te tocar ou tocar em um dos seus descendentes, pois, este será sete vezes mais maldito". Evitaria muitas mortes de ciganos."
No livro o falcão de Sabá o autor Ralph Ellis, já adquire uma postura menos xenofóbica, sugerindo que os ciganos seriam a descendência de um monarca chamado Ay que tinha um irmão chamado Aegyptus, e era conhecido como ROM, desta forma os Romanis seriam descendentes destes monarcas.
Minha avó, assim como os do grupo calon, preferem afirmar que são descendentes de Sara e Abraão, sendo beneficiarios das bençãos divinas dadas por Deus, livres, tem a terra por lar sendo os limites de sua pátria o lugar onde a vista alcançar, sabendo que este lugar subjetivo seu lar não tem muros nem fronteiras, sendo sua pátria onde ele estiver. Claro que esta é a minha versão predileta, não importando sua veracidade factual, mas a verdade que traz em sua essência, a liberdade...
Assim termino a primeira abordagem sobre os Ciganos seguindo o simbolismo de Lenormand... Não importando sua origem inicial, eles existem e prezam por sua liberdade seguindo seus extintos, apenas caminham sobre a terra belos, incompreendidos, misteriosos e principalmente livres...
Afinal, como afirmam "A terra é minha casa, o céu e meu teto e a liberdade minha religião". 

Referência:
Ellis, Ralph - As Chaves de Salomão: o Falcão de Sabá: A Redescoberta das Tumbas do Rei Davi, do Rei Salomão, de Hiram Habif e da Rainha de Sabá- pág:272-Trad.: Ana Carolina Trevisan. — São Paulo: Madras, 2004

domingo, 22 de agosto de 2021

Cultura Cigana pelo Baralho de Lenormand

     Se existe um povo étnico misterioso esta é a etnia Roma (cigana), associado a eles temos um baralho muito comum no Brasil, conhecido especificamente por baralho Cigano. O baralho cigano é composto por 36 cartas com figuras que remetem a algum aspecto da cultura Roma. No entanto, o oráculo se encontra disponível mesmo aos não ciganos, sendo de fácil manuseio e interpretação. 

       Este oráculo deve sua fama a Madame Marie Anne Adelaide Lenormand, uma cartomante Francesa, que segundo as lendas teria feito previsões a homens influentes como Robespierre e mesmo ao Czar Alexandre I e Napoleão Bonaparte. 

    

                                          Fig 1: Marie Anne Adelaide Lenormand

    A quem diga que o oráculo ficou perdido por cerca de dois séculos. Mas, devido a arte das cartas ciganas serem geralmente produzidas dentro dos clãs, acredito que tenha sobrevivido dentro de grupos ciganos e depois foram tornando parte do imaginário popular, escapando ao controle dos clãs e se tornando parte do misticismo. 

        Fig 2: Tarot Petit Lenormand/Tarot Cigano

    As postagens que aqui serão efetuadas, não se trata de uma postagem comum sobre a divinação ou adivinhação desempenhada pelas ciganas em suas tendas/casas aos consulentes; mas pretende apresentara algo sobre a cultura, quebrando de alguma forma um pouco dos estereótipos criados pela sociedade e pelo senso comum auxiliando de alguma forma em combater a discriminação, xenofobia e o racismo que este povo ainda sofre pelo país e pelo mundo.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

A vida os fatos e as superstições

O ser humano tem a necessidade de procurar explicações, desculpas ou culpados para as coisas que acontecem em sua vida. 
Quando começamos a viver, percebemos que estamos vulneráveis as leis universais que regem não apenas a natureza, mas também nossa vida.
O problema surge quando não queremos assumir a responsabilidade por nossas escolhas e as consequências que a seguem.
Em uma tentativa frustrada de explicar nossos fracassos e derrotas, buscamos apontar culpados para o que vivemos. 
Culpamos a astrologia, dizendo que a culpa e das estrelas, planetas e seus movimentos, podemos culpar também a fatalidade e dizer que isto é o destino. Ou apelamos para uma "divindade" que rege as intempéries e fatalidades, o diabo, e seus algozes. 
A superstição faz parte da cultura humana e se explica, quando analisamos a evolução da mentalidade humana. 
Fato no entanto é que se passamos por alguma dificuldade, no cerne de seu desenvolvimento veremos mas escolhas que fizemos, e de longe veremos que está é a verdadeira magia que atrapalha nosso desenvolvimento. Se a saúde está sendo afetada, com certeza houve algum desequilíbrio alimentar ou comportamental para com nosso corpo ou mente. 
Se nossos caminhos financeiros estão abalados, em algum momento houve um desequilíbrio, ou priorizamos o que não deveríamos ter dado tanta importância. 
Assim, antes de culparmos alguém ou alguma coisa, física ou metafísica por nossas escolhas se faz necessário olharmos para nossas atitudes, avaliarmos nossas atitudes passadas e atuais, reconhecer onde podemos melhorar e agir de forma mais equilibrada. Este é o princípio do "vai e não peques mais" do Cristo, deve-se reconhecer seus erros e evitá-los em momentos futuros buscando assim a restauração de seu equilíbrio. 
Assuma portanto, suas responsabilidade, olhe para seu interior e procure a melhora que espera do mundo em vc mesmo, abandone as superstições e sua vida com certeza será melhor.